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Ritmo de prova na natação em águas abertas

Atualizado: 9 de set. de 2021


Foto: FishEye Photografy


Um nadador de águas abertas é desenvolvido dentro de uma piscina. Embora os treinos em águas abertas, de fato, são muito importantes para desenvolver componentes específicos da modalidade, a maior parte de uma preparação de uma prova de águas abertas ocorre dentro da piscina.


Nesse sentido, existem diversas variáveis de desempenho que existem dentro de um ambiente controlado que é a piscina, tais como a frequência gestual (ou frequência de braçada); distância de ciclo (ou comprimento de braçada) e ritmo de nado (ou velocidade). Esse último é amplamente difundido no cenário da natação e é entendido como o tempo para percorrer 100m. Independente da distância percorrida, o entendimento da estratégia adotada pelo nadador ao longo da prova é dado frações menores associadas ao ritmo de nado.


Como por exemplo, um atleta na semana de uma competição de 1500 metros em águas aberta, ele obteve o seguinte resultado em piscina:

1° 500m: 6`40”00 Ritmo/100m: 1`20”00

2º 500m: 7`05”00 Ritmo/100m: 1`25”00

3º 500m: 6`55”00 Ritmo/100m: 1`23”00

Total: 20`40”00 Média Ritmo/100m: 1`22”


Acontece que no dia da prova de 1500m em águas abertas o atleta obteve o seguinte desempenho:

1° 500m: 7`05”00 Ritmo/100m: 1`25”00

2º 500m: 7`30”00 Ritmo/100m: 1`30”00

3º 500m: 7`20”00 Ritmo/100m: 1`28”00

Total: 21`55”00 Média Ritmo/100m: 1`27”


Mas o que de fato ocorreu para que ele tenha “piorado” mais de 1 minuto?


Acontece que, em piscina, não temos ondas, correnteza, maré enchendo, vento maral, boias de sinalização, água gelada, água viva, etc. O que faz com que a nossa principal variável de controle seja descartada. De fato, o ritmo de nado e o tempo total de uma travessia não são levados em consideração para os grandes atletas da modalidade. O tempo em que você realizou uma travessia hoje pode ser outro completamente diferente em questão de horas!


Mas, diante disso, como devemos monitorar as sessões de treino na piscina para que as adaptações se transfiram da melhor forma para uma prova de águas abertas?


A resposta se chama Percepção Subjetiva de Esforço (PSE). A PSE nada mais é de como você percebe a carga de estímulo dada por fontes externas. Imagine-se em uma esteira de academia a 5km/h, é uma carga leve, ok? Agora vamos manter a velocidade e aumentar a inclinação, o que já aumenta a resposta ventilatória e já dificulta um pouco. Agora, se aumentarmos a velocidade junto com a inclinação e desligar o ar condicionado da academia. Já é preciso aumentar a resposta ventilatória junto com a frequência de passada, o que já dificulta bastante.


Portanto, o que deve ser trabalhado na preparação em águas aberta é uma um ritmo de gestos e de respiração associadas com uma PSE. Muitos atletas e treinadores costumam definir diversas nomenclaturas para índices associados a PSE, seja a clássica da natação: A1, A2 e A3; ou a mais usada no triatlo: Z1, Z2, Z3, Z4 e Z5. Independente da escala, é importante saber exatamente como o seu corpo está manifestando aquela carga de esforço.


Em teoria, a prova de 1500m fica compreendida entre as percepções de A2 e A3. Assim, fica muito difícil saber o esforço percebido de forma mais precisa. Por isso que existem escalas com mais valores, pois possibilitam descrever precisamente como você está tolerando aquela carga. A escala mais clássica é uma adaptação da escala desenvolvida por Gunnar Borg em 1982 (NOBLE et al., 1983):


Classificação

Descritor

​Nenhum esforço

0

Extremamente leve

0,5

Muito leve

1

Leve (fraco)

2

Moderado

3

Relativamente intenso

4

Intenso (difícil)

5

6

Muito intenso

7

8

9

Extremamente intenso

10



Essa escala é muito simples, mas nos dá umas informações valiosas a respeito da carga percebida. Principalmente quando associada a um descritor. Pois bem, como dito, o desempenho de uma prova de 1500m ocorre entre A2 e A3. Olhando para a Escala acima, o A2 fica a aproximadamente na classificação 4 (Relativamente intenso) e o A3 fica aproximadamente na classificação 7 (Muito intenso). E como distribuir a prova neste intervalo de percepções?


Segundo a literatura, uma prova de 1500m em piscina é dado por uma saída mais rápida (três primeiras parciais de 50m), uma manutenção de velocidade no “miolo” de prova (de 150 a 1400m) e uma aceleração ao final (últimos 100m). Isso, se levarmos em consideração a velocidade, é um perfil similar a letra “U”. Embora todos os nadadores terminem forte, a literatura aponta que o diferencial entre nadadores de 1500m está nas primeiras parciais. Existem nadadores mais conservadores (perfil em J) enquanto existem nadadores que gostam de sair rápido (perfil em U). (MCGIBBON et al., 2021)


No entanto, quando se trata de águas abertas, é importantíssimo largar bem e tentar se posicionar com os pequenos grupos que estão à frente da prova. Pois como é permitido o uso de esteira (drafiting), é fundamental fazer uso deste artifício para poupar o máximo de energia para o final de prova.


Portanto, o que deve ser trabalhado em águas abertas é um ritmo de gestos e de respiração associados com uma PSE.


Algumas dicas valiosas para fazer um ótimo aproveitamento do treino em piscina para águas abertas:

  • Tente sempre associar uma percepção de esforço para cada fase de uma prova. Para provas de 1500 m, começar e terminar a prova próximo de 7 na escala e sustentar um valor mínimo de 4 no “miolo” de prova.

  • Preste atenção em dois detalhes:

  • O esforço é acompanhado por um estresse ventilatório, que é necessidade de movimentar ar nos pulmões para a demanda de exercício.

  • O esforço é acompanhado por uma frequência gestual, que é a frequência de braço e de pernas para aquela demanda exercício.

  • Treine sempre para fazer um início rápido de prova, para tentar se posicionar em um grupo que melhor se encaixe com o seu ritmo de “miolo” de prova.

  • Como em qualquer esporte, todos querem chegar na frente. Portanto, o nadador que melhor distribuiu a energia durante a prova, terá mais “gás” no sprint final.

  • Saiba que todos deixarão para dar um sprint ao final. Assim, também é importante treinar sprints mesmo já cansado.








Escrito por Felipe Domingos Lisbôa

Educador Físico - Treinador de Alto Rendimento na RP Natação

Doutor em Ciências do Movimento Humano



Referências

MCGIBBON, K. E. et al. A Novel Method to Characterize the Pacing Profile of Elite Male 1500-m Freestyle Swimmers. International Journal of Sports Physiology and Performance, v. 16, n. 6, p. 818–824, 1 jun. 2021.

NOBLE, B. J. et al. A category-ratio perceived exertion scale: relationship to blood and muscle lactates and heart rate. Medicine and science in sports and exercise, v. 15, n. 6, p. 523–8, 1983.


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